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Você é Hands on?

Colaboração (Paulo Junior - Adm -I )

Li um anúncio de emprego. A vaga era de Gestor de Atendimento Interno, nome que agora se dá à Seção de Serviços Gerais.

E a empresa exigia que os interessados possuíssem - sem contar a formação superior - liderança, criatividade, energia, ambição, conhecimentos de informática, fluência em inglês e não bastasse tudo isso, ainda fossem HANDS ON.

Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía essa variada gama de habilidades, o salário era um assombro: 800 reais. Ou seja, um pitico.

Não que esse fosse algum exemplo fora da realidade. Ao contrário, é quase o paradigma dos anúncios de emprego. A abundância de candidatos permite que as empresas levantem cada vez mais a altura da barra que o postulante terá de saltar para ser admitido.

E muitos, de fato, saltam. E se empolgam. E aí vêm as agruras da super-qualificação, que é uma espécie do lado avesso do efeito pitico...

Vamos supor que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão
bem preparados quanto ela, a Fabiana conseguisse ser admitida como
gestora de atendimento interno... E um de seus primeiros clientes fosse
o seu Borges, Gerente da Contabilidade.

Seu Borges: - Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.
Fabiana: -- In a hurry!
Seu Borges: - Saúde.
Fabiana: -- Não, Seu Borges, isso quer dizer em rapidinho. É que eu
tenho fluência em inglês.
Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em
inglês se aqui só se fala português?
Seu Borges: - E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?
Fabiana: -- O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque
eu tenho profundos conhecimentos de informática.
Seu Borges: - Não, não! Cópias normais mesmo.
Fabiana: - Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha
criatividade.
Eu já comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 30% das
cópias que tiramos.
Seu Borges: - Fabiana, desse jeito não vai dar!
Fabiana: - E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar.
Seu Borges: - Como assim?
Fabiana: - É que eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. E
considero isso um desperdício do meu potencial energético.
Seu Borges: - Olha, neste momento, eu só preciso das três cópias.
Fabiana: - Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro...
Seu Borges: - Futuro? Que futuro?
Fabiana: - É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui e
ainda não aconteceu nada.
Seu Borges: - Fabiana, eu estou aqui há 18 anos e também não me
aconteceu nada!
Fabiana: - Sei. Mas o senhor é hands on?
Seu Borges: - Hã?
Fabiana: - Hands on....Mão na massa.
Seu Borges: - Claro que sou!
Fabiana: - Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença que
eu vou sair por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que me
prometeram quando eu fui contratada!

Então, o mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções:

1 - Uma, cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não
têm as qualificações requeridas.
2 - E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos
porque possuem todas as competências exigidas nos anúncios, mas não
poderão usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava
delas.

Alguém ponderará - com justa razão - que a empresa está de olho no longo
prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ir sendo
preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores.

Em uma empresa em que trabalhei, nós caímos nessa armadilha. Admitimos
um montão de gente superqualificada. E as conversas ficaram de tão alto
nível que um visitante desavisado confundiria nossa salinha do café com
a Fundação Alfred Nobel.

Pessoas super qualificadas não resolvem simples problemas!

Um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de nossas
fábricas e no meio da estrada, a van da empresa pifou. Como isso foi
antes do advento do milagre do celular, o jeito era confiar no
especialista, o Cleto, motorista da van. E aí todos descobriram que o
Cleto falava inglês, tinha informática e energia e criatividade e estava
fazendo pós-graduação... só que não sabia nem abrir o capô.
Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava tentando destrinchar o
manual do proprietário, passou um sujeito de bicicleta. Para horror de
todos, ele falava óis vai e coisas do gênero. Mas, em 2 minutos, para
espanto geral, botou a van para funcionar. Deram-lhe uns trocados, e ele
foi embora feliz da vida.

- Aquele ciclista anônimo era o protótipo do funcionário para quem as
Empresas modernas torcem o nariz:
O QUE É CAPAZ DE RESOLVER, MAS NÃO DE IMPRESSIONAR.

Max Gehringer

Comentários
  • Anna Paula Cabral Lustosa enviou (segunda, 14 de junho de 2010):
    Oi professor, adoro o site sempre que posso dou uma vistidadinha, pois é muito rico em informação, cheio de novidades. Xauzinho...
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Meu Perfil

Jair Júnior Parriul - Formado em Administração de empresas, com especialização em Comunicação Empresarial e Marketing,  MBA em Gestão Empresarial. Ex-Professor da Faculdade Objetivo em Palmas, Ex-Professor na Faculdade FECIPAR  em Parariso do Tocantins, Ex-Professor da Faculdade UNEST em Paraiso do Tocantins, Professor de Graduação e Pós-graduação da Faculdade  ITOP, em Palmas, Assessor de Planejamento e Orçamento do SENAC - Tocantins, Consultor e Instrutor. Compositor e Poeta, autor dos livros "Ventos de Liberdade" e "Feliz Ferido". Natural de Gurupi-TO, Hoje reside em Palmas-TO. Ciclista aventureiro.

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